Por Mirinaldo
Não. Não quero saber dessas mensagens prontas que a galera reposta da internet e joga no grupo dos professores ou manda no privado de alguém em homenagem ao dia de hoje. Balela. Pura falta de emoção. Parece aquele “Eu te amo” forçado. Aquele abraço que não se quer dar. Aquele sorriso amarelo, aqueles parabéns com palmas baixas. Balela. Chega de frases de efeito. Aquelas do tipo “O professor forma todas as profissões”, “O professor deveria ser valorizado”, “O professor deveria receber o maior salário deste país” – essa é de matar de rir. A pior de todas é a que vem do próprio professor: “Nós, educadores!”. Essa é de dar cãibra na língua (eu não sou educador e não conheço nenhum educador ao meu redor). Isso é apelação. Também não quero saber daquele bolo feito às pressas, esquecido na padaria e que foi recheado com uma vela torta e uma calda de chocolate mal derretida. E, para completar, na hora de cantar parabéns, uns começam e outros vão atrás atrasados e ninguém sabe se, ao final, deve-se cantar “muitos anos de vida” ou “muitas bênçãos de Deus”. Balela.
Não curto essa de políticos mandando “feliz dias dos professores” em um ato de total ignorância, pois nem escrito corretamente isso está. Não mandam seus assessores sequer fazerem uma revisão no GPT antes de jogar essas frases no ar. A internet que se vire, eu já fiz o meu papel de homenagear essa classe, espero manter meus votos na próxima. Professor e um botijão de gás! Quem diria?
É quase tudo tão forçado. É quase tudo tão deprimente.
Concorda comigo? A grande razão de o professor ser quem é são seus alunos – os primeiros a abandoná-lo nesse dia. Depois que descobriram que feriamos em 15 de outubro, não querem outra coisa a não ser irem para casa. Amam tanto os seus mestres que querem qualquer dia longe deles. E segue a banda: Os pais, as notas; os políticos, os números; a sociedade; distância; os alunos, nada.
O professor é um ser pesado. De chumbo. Figura desacreditada. No cerne no nazifascismo aflorado no Brasil desde 2019, o professor teve sua imagem afundada mais ainda na sociedade. Elegeu-se a imbecilidade como favorita e o professor não serviu mais mesmo. Quem precisa dele se se pode sobreviver de ilusões de ser rico? Aquele ser que ditava os sonhos e dava a base para a vida se tornou uma forma em decomposição, ou como alguém disse uma vez que “Deveria nascer de novo”. Quem está certo é o aluno. Quem manda são os pais. Quem quer dados é o governo. E quem se alinha é o... professor. O professor está do outro lado do balcão, pois caiu nas malhas da educação bancária, o que tanto Paulo Freire temia.
O professor não sabe. Ele não decide. Ele não opina – se o fizer, não serve. O professor é um fio condutor do governo. Este é que aprova aquele aluno que não deveria ser aprovado. É o governo que elabora as aulas e estabelece como deve ser trabalhado cada horário. Mas isso, nunca pensando no futuro do aluno, mas no resultado imediato dos números. A própria sociedade espera os números, mesmo sem saber bulhufas do que eles significam. Aliás, a propaganda sobre educação e professor é a pior que existe. Mostra-se escola sendo construída ou algum professor sorrindo. Nem uma coisa nem outra é verdade. A educação não se mostra na TV e professor, para ser feliz, não precisa sorrir, basta ser valorizado.
E, enfim, muita coisa para se dizer. Mas o professor não tem tempo. Seguirá sua jornada na lista dos animais em risco de extinção. Sim, é ele que pode dar os rumos ao país, ao seu estado, à sua cidade. Mas essa vez não chegou, pois ele precisa de estudantes para aspergir os conhecimentos, mas até o momento, só recebeu alunos. Ele precisa de pais, mas só recebeu “pais e responsáveis”. Ele precisa de políticos, mas só recebeu candidatos. Ele precisa da sociedade, mas só recebeu indivíduos. Ele precisa do mundo, mas só lhe deram um quadro.
Então, o professor tem um outro professor. Talvez aí resida a sua grande existência por ora encontrada ante a sua sobrevivência nesse oceano de desilusões.
A outro professor, então, digo: É, meu amigo, hoje é 15 de outubro.
