sexta-feira, 5 de agosto de 2016

MEUS 20 ANOS





Neste mês de agosto de 2016, completo exatos 20 anos de trabalho como PROFESSOR. Quero compartilhar um pouco do muito que aprendi no magistério.

1.    Aprendi, primeiro, que aprender só nos deixa com vontade de aprender, o que é um ciclo que me faz voltar sempre para a primeira pergunta: o que eu tenho que aprender?
2.    Aprendi que os alunos não são nossos, mas que estão conosco, não sempre, mas constantes em nossa memória. E que cada um é uma lição que nunca daremos por completo. E assim deve ser.
3.    Aprendi que os conteúdos escolares são vazios porque nós não vemos nada de nossa essência neles, pois nós nem sabemos ao certo qual é a nossa essência. Nós improvisamos o nosso próprio “ser professor”.
4.    Aprendi que o companheirismo é produtivo quando todos sabem o que se deve produzir e conhecem o tempo certo para fazer isso juntos.
5.    Aprendi que o silêncio de um professor é uma aula quando o grito vem do improviso.
6.    Aprendi que as respostas não estão em nossas mãos, nem no nosso coração, nem na nossa alma, mas sim no trabalho. E as respostas duram menos tempo que as dúvidas.
7.    Aprendi que professor não ensina, pois ensinar é para os sábios. E professor não é sábio, ele é um servo do sábio: o constante conhecer.
8.    Aprendi que educação não é um ato de amor, pois só conheci o amor plenamente quando me tornei pai, e não se dá a um aluno o que se dá a um filho. Porém, deve-se dar a ambos o que é de direito de ambos: o auxílio ao aprendizado.
9.    Aprendi que professor não vale nada para alguns, não interessa a outros, atrapalha certos e serve a todos.
10. Aprendi que não existe educação de qualidade, mas sim que a qualidade já é a educação: ou ela existe ou não existe.
11. Aprendi que nunca fizeram política para a educação em nenhum momento da nossa história, pois a educação já é uma política.
12. Aprendi que nós falhamos porque nos propusemos justamente a fazer o que não sabemos: ensinar. Pois se tentássemos aprender, então haveria o trabalho para ensinar.
13. Aprendi que as leis da educação não são dela, pois a educação para ser livre como pensamos que deve ser, não se impõe, é compartilhada. As leis servem aos que mandam, não aos que professam.
14. Aprendi que a única lei que pode nortear a educação é a própria natureza, não como floresta versus homem, mas como homem em contínuo à floresta.
15. Aprendi que a maioria esmagadora dos políticos odeia o professor, porque sabe que é este que ainda consegue decifrar a torre de Babel que eles criaram.
16. Aprendi que professor também trai outro professor, porque simplesmente muitos de nós querem estar onde os corruptos estão.
17. Aprendi que a política do professor deve ser feita com a mão esquerda, pois a direita mente, maltrata e é pesada contra todos os que a subvertem.
18. Aprendi que o professor não deve nunca ler a nossa bandeira como ORDEM E PROGRESSO, mas sim como SE É PROFESSOR, TEM QUE LUTAR.
19. Aprendi que as obrigações que nossas autoridades nos impõem, como rigidez de horários e o preenchimento de fichas ridículas, são uma forma de nos prender dos nossos pensamentos. Pois, se o professor pensar, ele já muda a si mesmo: essa é a primeira ameaça aos autoritários.
20. Aprendi que professor não vota em professor, porque professor não pensa como professor.
21. Aprendi que os métodos que já vêm prontos nas cartilhas devem ser corrompidos por nós, pois são códigos malditos para lavar nossas almas e nos tornar bestializados em uma vida errante e pobre espiritualmente.
22. Aprendi que o celular na sala de aula só é maldito porque ele altera nossa linha de trabalho, que não foi desenhada por nós, e que temos temor em cortá-la.
23. Aprendi que o que mais une os professores são as questões de salário e o que mais separa são os ganhos.
24. Aprendi que o professor tem uma tabela de valores feita pelos que mandam no país: abaixo estão os contratados, os que vestem camisa de força; acima estão os que devem ser isolados do sistema.
25. Aprendi que os nossos sindicatos lutam com espada contra canhões.
26. Aliás, aprendi que o professor vê o sindicato como um conjunto de outros professores.
27. Aprendi que a nossa visão de formação dita continuada é exatamente como o nome diz: continuada (sem o “por quem”).
28. Aprendi que os nossos salários são o maior indicador de nosso estado de espírito ante o nosso trabalho. Ou seja, pensamos como os governos que nos pagam mal.
29. Aprendi que professor não é uma profissão nobre, pois acima disso existe a humanidade. Se esta é nobre, o professor também é, assim como é a lavadeira e o roceiro. É a humanidade que todos devem alcançar.
30. Aprendi que ser professor não é ser um pouco de tudo, pois o tudo e o nada são a mesma coisa.
31. Aprendi a filosofar que Paulo Freire é muito mais que um senhor de barba branca. Mas na minha prática docente e na de muitos colegas só vejo um senhor de barba branca. Mas é Paulo Freire que adorna minhas epígrafes.
32. Aprendi que o marxismo ainda é a linha do nosso trem, mas que precisamos de um trem novo, pois a direita maldita vive a entortar os nossos trilhos.
33. Aprendi que quando um professor abandona, desfilia-se revoltosamente do seu sindicato, ele realmente nunca deveria ter estado lá, pois ele pensa como a direita, e o pensamento da direita nunca pode ser o do sindicato, pois se assim for, o sindicato não precisa existir, afinal, por que você acha que a direita persegue o nosso sindicato?
34. Aprendi que as provas que damos aos nossos alunos têm as questões que nós achamos que eles devem resolver e não os problemas que eles vão enfrentar de fato longe de nós.
35. Aprendi que muitas vezes pensamos que a nossa autoridade ensina e nem percebemos que já estamos sendo autoritários.
36. Aprendi que o professor tem, sim, muito respeito de boa parte da sociedade, aquela porção que concebe o ensino como memorização, mas que não se lembra de nada.
37. Aprendi que o professor está sobrecarregado na sua jornada diária de trabalho, e que isso comprova que ele não é meta-humano, é humano mesmo: precisa comer.
38. Aprendi que o professor, mesmo não tendo obrigação de ser nada além de professor, tornou-se o responsável pela família dos outros em detrimento da sua, e que será o culpado e punido por todos os erros que cometer nessa litigiosa adoção.
39. Aprendi que o “bom” professor que a Rede Globo mostra é aquele que atola o pé na lama para ensinar seus alunos nos manguezais da vida, justamente porque a imagem desse professor é manipulada para pensarmos que a nossa prática deve ser a seguinte: “Te vira! Deixa o Estado em paz”.
40. Aprendi que muitos são professores para não serem nada e coordenam professores pensando ser tudo.
41. Aprendi que professor pode ser um castigo: é quando designam alguém por algum desafeto para ser professor e este viverá sob o estigma: “Quis ser grande coisa, voltou pra sala de aula”.
42. Aprendi que para muitos professores o pior lugar do mundo é qualquer lugar onde se é professor.
43. Aprendi que a autoridade de um professor falha quando ele mesmo a quebra por desgaste e mau uso.
44. Aprendi que a saúde do professor é poder pagar as contas e não levar falta do sistema estúpido de ensino. No mais, ele espera a exaustão. Ou a morte.
45. Aprendi que o pior político é o professor, pois conhece mais dos textos do que dos destinatários dos textos. Ou seja, está mais para ler que para fazer, já que também entende o ler como um não fazer.
46. Aprendi que o professor não é e nunca foi o detentor do conhecimento, mas é sempre quem pode dar a conhecer.
47. Aprendi que o magistério não é um sacerdócio, o ensino não é para a vida e a educação não é a solução dos problemas do mundo, como também aprendi que sem um professor em qualquer uma dessas instâncias, ela simplesmente não existe.
48. Aprendi que ser professor é exercer uma vocação sempre inconclusa, é sempre chegar à parte de um objetivo e é sempre insistir na vocação e nos objetivos dos outros.
49. Aprendi que um bom professor é o que constrói pontes atravessando primeiro o rio, mas volta igualmente nadando para que todos possam inaugurar essas pontes juntos e corram todos os riscos. E daí ele volta.
50. Enfim, aprendi, nesses 20 anos, que eu ainda estou procurando um rio.
Mirinaldo, pelos meus 20 anos de “disdocência”.
05 de agosto.

sábado, 14 de maio de 2016

GRAMÁTICA PRA SALVAR O BRASIL?



Uma página coxinha no Facebook está participando “ativamente” por um Brasil “sem” corrupção e “com” desenvolvimento. Há na página dois argumentos para isso: o primeiro diz que as coisas começaram a melhorar (e colocam a foto da mulher de Michel Temer). O segundo é o que eu vou discutir aqui. Comecemos com a postagem publicada:

“Não é emocionante gente?
AQUELE MOMENTO EM QUE O PRESIDENTE FALA O PORTUGUÊS CORRETAMENTE USANDO O PLURAL SEM GAGUEJAR PELA PRIMEIRA VEZ EM 13 ANOS” (ao lado, uma foto de Michel Temer).

Em outras palavras, se um presidente “domina” o “português corretamente”, estaremos felizes, certos de que o Brasil está em boas mãos.
Aí eu pergunto: você conhece alguém que fale o “português corretamente”? Mais uma pergunta: você sabe o que é um “português corretamente”?
Não perca seu tempo. Você nunca vai achar quem fale o “português corretamente”, uma vez que até hoje os gramáticos e os linguistas não sabem definir o que é esse tal de falar “corretamente” e nem se ele de fato existe. Temos então a primeira asneira sobre política usando a nossa língua. Ou, usando uma palavra de um dos maiores linguistas do Brasil, Marcos Bagno, isso é um mito.
Não há em toda a terra, nem na história da humanidade alguém que tenha falado o “português corretamente” (com aspas). Mas, pasme, todos os que falam português, falam o português corretamente (sem aspas). Como assim? Falar, por si só, já é um ato correto, funcional, ativo. Quantos falam português no Brasil? Não sei exatamente, pois ainda temos as línguas indígenas, algumas línguas europeias e outras mais. Mas afirmo: os que falam português aqui ou em qualquer lugar, falam corretamente. Com diferenças, mas corretamente. Eu sei que a página do Facebook está tentando nos enveredar para uma forma (entre centenas!) de falar o português: a padrão. Aquela baseada na gramática normativa. Aquela ensinada nas escolas. E volto a perguntar: quem fala daquele jeito que está nos manuais didáticos? Não responda que é o professor! Ninguém o faz sem um contexto muito específico, mas muito específico mesmo. E, quando se atrevem a fazê-lo, fazem baseados na escrita, ou seja, o texto é escrito antes, decorado ou lido depois e qualquer improvisação de fala fora dessa escrita é uma aventura. E o texto escrito não é certeza nenhuma de estar “correto”.
Nem vale a pena questionar se Temer sabe ou não gramática sem ter um texto escrito antes (o que garanto que não sabe), mas vale muito a pena questionar por que tamanha asneira é usada como se fosse um argumento dos mais validados possíveis para justificar que Temer fará um bom governo pós-golpe pelo fato de alguém supor (eu disse: supor! Ou mesmo perpetuar um preconceito!) que ele fala “corretamente” o português. E mais ainda: que faz treze anos que não se ouvia isso. Na verdade faz treze anos que os donos da página não estudam gramática alguma. E mais: se Temer não gagueja quando fala, isso não altera o preço do dólar, nem do barril de petróleo. Se ele fez o plural (o que tenho certeza que não acertou todas na linha da gramática normativa) ou não, isso não traz de volta os empregos, tampouco faz ele exonerar os ministros citados na Lava Jato. Nem conte com a possibilidade de que Temer fale bem o “português corretamente”, pois estaremos fritos. Avalie a política como ela é. O melhor presidente que o Brasil já teve (falo com base em pesquisas) não tem nível superior algum. Já o que tentou vender o Brasil para os Estados Unidos, via FMI, a preço de banana, fala cinco idiomas e é sociólogo conceituadíssimo.
Ou seja, não saia do foco, não tenha medo de discutir os problemas do Brasil. Use a nossa língua para isso. Mas não a use como se ela fosse um fator isolado de você ou cristalizado numa torre de marfim. Não adore a língua, seja a língua. Você é parte dela. E se você vai comprar ou vender a ideia de que a gramática vai salvar a nossa pátria, lembre-se: os próprios políticos não estão nem aí para isso. É você que está perdendo tempo, enquanto eles decidem a sua vida. E então, vai ficar tentando acertar questões de gramática ou vai usar a sua gramática para discutir o Brasil?

PS: Só uma brincadeirinha de gramática: os donos da publicação esqueceram uma vírgula. Meu Deus! O Brasil está frito! Ainda bem que não foi o Temer!
Mirinaldo

O amarelo tucano e o ouro negro do pré-sal




Todos os ministros (homens brancos e ricos) de Temer têm um papel na consolidação do golpe e a função de apresentar resultados fantasmagóricos ao país de uma possível saída milagrosa para a crise econômica e política (com mitológica base sustentável) mostrando que governo bom quem faz é homem e não mulher. Mas, acredite, o papel de José Serra chega a ser o mais demoníaco. Para mim, a função dele é a mais terrível e abominável de todas. Serra como ministro das relações exteriores não é mera nomeação de Temer, muito menos uma forma de acomodar o PSDB no governo do golpe, como recompensa pela saída de Dilma. Não há nada de inocente nessa nomeação.
Serra, em nome do PSDB, é o autor do PLS 131/2015 que estabelece que a Petrobras não seja a única empresa a explorar o pré-sal, o que incluiria uma abertura para a participação de empresas estrangeiras. Acontece que nessa participação só há um agente interessado: os Estados Unidos. Desde o governo FHC, o país já pleiteava alcançar nossas riquezas o que começaria pela implantação da ALCA, o que o PT não aceitou fazer, pois nossas matérias-primas sairiam a custos baixíssimos e o Brasil seria um polo estratégico de dominação da América do Sul pelos norte-americanos. Perderíamos nossa autonomia.
O papel de Serra consiste em isolar as opiniões e participações político-ideológicas dos países nossos vizinhos, tornando-os nulos e imprestáveis para qualquer participação mais significativa. Tanto PMDB quanto PSDB sempre primaram pelo isolamento dos países sul-americanos, já que a política deles não se alinha aos interesses do tio Sam e os partidos de direita daqui pretendem americanizar/internacionalizar nossa economia e política, o que já chegaram a fazer quando se montou o Plano Real a partir das ideias do economista inglês John Maynard Keynes (que aqui a Globo fez a gente pensar que foi FHC o autor original do plano).
Eu já disse outra vez que a crise no Brasil não surgiu por acaso, o que eu quis fazer foi justamente estabelecer sua origem em algo que já desperta o interesse estrangeiro: petróleo. Com o poder que tem agora, José Serra poderá avançar na pretensiosa corrida para abrir as portas, as janelas e o pré-sal para o capital estrangeiro. Colocaram a raposa junto com as galinhas.
Agora resta acompanhar reflexivamente o processo de como isso se dará. Digo reflexivamente no sentido de não engolir o que a Rede Globo vai tentar nos passar de que essa abertura para a exploração do nosso ouro negro é necessária para a salvação do país (país como sinônimo de governo golpista de Temer). Preste atenção como aqui não vai interessar o espanhol, mas o inglês do Norte.
Mirinaldo

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O PROFESSOR E O PODER



Dizem que o professor exerce a profissão das profissões. Nunca acreditei nisso. Pelo menos do ponto de vista prático, afinal, isso não passa de uma vã filosofia. Acho que ser professor hoje é um constante sinônimo de luta. E as causas dessa luta não param de crescer. Quando estamos avançando num ponto, perdemos em dois ou três. E as causas vão se somando. Exercemos uma profissão com inimigos claros: os políticos, a mídia e os que seguem a mídia. Às vezes nem nos damos conta, mas também somos inimigos de nós mesmos. E dentro da nossa categoria, há os que são mais oprimidos ainda, inclusive por nós – são eles meia dúzia de sindicalistas. Ou seja, a profissão de professor não tem nada a ver com as belas frases de Alexandre Garcia, porque são anedotas, nem com a própria pátria educadora, porque é uma proposta que não sabemos quem vai executá-la, além do que, a mídia e a direita fascista vêm ofuscando o que é o Brasil de verdade, desfocando nossa rara atenção para o apelo ao golpe. É só nisso que se fala: todo mundo agora tem uma moral que rebate os céus, desde que não seja petista. Ou seja, nunca simplificamos tanto nossa visão já minimalista (agora, sim, eu sei o que é a lei do menor esforço).



A frase “A profissão das profissões” é uma piada para qualquer jogador de futebol, principalmente os que se aposentaram em grandes fortunas e andam por aí pregando que o futuro do Brasil está numa bola (que tem de ser de futebol!) que supostamente sabe filosofar, como também faz rir duplas sertanejas, grupos de pagode, programas de auditório. Quem deles precisa de um professor? No país do futebol, do carnaval e das novelas, quem precisa de um professor? Na política do pão e circo, quem precisa de um professor? Nas propagandas eleitorais cheias de demagogias, quem precisa de um professor? Num país onde letrados votam em analfabetos, quem precisa de um professor?



O professor tem prazo de validade determinado pelas conveniências. Ele é marionete. Quem o move são os interesses e os míseros salários pagos pelo Estado em todas as suas esferas. Ainda estamos submetidos às vontades dos currais eleitorais e somos tal e qual qualquer membro que compõe a massa de manobra eleitoreira. Ainda votamos com a mesma mentalidade de quem vive a morrer de fome material. Aliás, parece que não sentimos outra fome que não seja essa. Nossas ambições são fortuitas e nossos sonhos podem ser qualquer coisa, desde que essa coisa não sejamos nós que a façamos. Não queremos correr nenhum risco, afinal, mantemos nossa vida por um fio em nossos trabalhos (que nem empregos são) somando-nos a milhões de figuras trocadas de cargo a cada quatro anos e rezando cartilhas de opressores para não matarmos nossos filhos de fome, enquanto pregamos uma pedagogia de um homem que mais parece um mago da caverna a quem chamamos Paulo Freire. Aquele que nós matamos numa pretensa filosofia revolucionária que caiu no logro capitalista. E junto com ele, Karl Marx.



Não somos professores a longo prazo. Somos o que vale o momento e, acredite, nunca impomos o valor de momento algum. Nossa missão (digo: obrigação) é cumprir esse momento e torná-lo memorável a um falso herói, nunca a nós. Nós, talvez, ganharemos o nome de uma escola quando morrermos.



Nós ainda somos o fracasso dos que reprovam no final de ano e um fantasma para os que “chegam lá”. Ainda somos alguém que “controla” uma sala porque atribuímos o que um aluno quer: a nota. Sem ela, aqueles famosos temas transversais de PCNs viram apenas matérias como as outras. Nós somos os que ensinam coisas de que muitos duvidam, pois se não está na internet, o professor não sabe. Somos os que gritam que a sociedade deve ser justa e igualitária e que todos devem viver na justiça social, o que serve para se rir quando Neymar tem seus quase 200 milhões bloqueados por sonegação fiscal, mas ainda ostenta o título de melhor jogador, de herói. Então isso basta. Aliás, estamos no país onde o honesto é o menos corrupto. Somos os que ensinam sobre o combate à alienação dedicando pelo menos trinta anos de nossas vidas, porém o que ensinamos sobre isso se torna simplesmente nada depois de trinta segundos da Rede Globo.



Fomos reduzidos a dar aulas.  A não pensar. E pior ainda: a não ensinar a pensar. Estamos confinados em nossos salários. O Estado nos deixou dependentes unicamente da nossa renda. O resto, ele pensa tudo. Ele controla tudo. Nem um grito. Nem uma crítica. Só sala de aula e enfeites das datas festivas. E a viver vomitando-lhe muitos elogios. Aliás, esse será o próximo confinamento do professor: a adoração. Não a Deus, mas a algum deus que poderá nascer de qualquer coisa, de qualquer monte, até mesmo das fezes de gado. Não importa o critério. Não pode haver critério. Critério é sinônimo de crítica. E crítica é insubordinação.



Em cada canto deste país, e mesmo desta menina explorada chamada América, é assim. Ou muito pior. Não importa se numa sala cercada de mato ou numa sala de uma universidade, a dominação chegou a todos.



O professor não morreu (ainda) no país do futebol. Mas está sobrevivendo. Não que eu ache que a imagem desse professor deva suprimir a de um jogador milionário de futebol que parou seus estudos ainda no fundamental, isso seria uma utopia e o Brasil seria irreconhecivelmente melhor. Ocorre que o preço dessa sobrevivência está ficando alto demais e o professor está passando a ter uma imagem deplorável, deformada pelo sistema político. Está como os políticos querem? Sim. Então não presta. O futebol tem mais a adesão dos brasileiros que o ensino? Sim. Então não presta. As novelas são mais apreciáveis que as aulas? Sim. Então não presta. As ideologias da mídia dominam mais que as da educação? Sim. Então não presta. O sistema de fato nos amarrou usando nossas próprias cordas. E de nosso útero docente está saindo uma geração que não cultiva em nós qualquer mudança, nem nela mesma, por isso sai às ruas batendo em panelas, ou temos cantor milionário usando a palavra “porra” para fazer uma revolução chinfrim, gente orando para tirar o governo porque é do demônio e colocar a oposição porque é do céu, que pede democracia e ditatura ao mesmo tempo, ou se não puder, que a presidenta morra. Tudo desconexo para o nosso entendimento, mas absolutamente coerente para quem pensou mais a politicagem do que os professores pensaram a democracia.



Essa mesma geração apostou tudo nos modos automáticos e se poupa de atitudes de reflexão. Quando vê um aglomerado, não importa a causa, vale por ser a reunião de vários, mesmo sem muito ou nada de sentido.



É, ser professor hoje envolve, sim, uma luta, mas também nós precisamos ajustar nossos alvos. E acredite, teremos de apontar para nós mesmos. Há muito o que descobrir no magistério, mas os campos são diversos e difusos e precisaremos começar por entender o que somos em tudo isso. Estudar muito além do que estudamos para repassar em nossas salas é outro meio de entender o sistema. Nunca tomar juízos prontos e ler mais sobre uma ideia pronta é uma maneira de ajuizar. Mas o mais importante ante um quadro de humilhação e subjugo a que são submetidos os professores na teia do poder imbecil é compartilhar. Ninguém será compreendido se não se expressar. As experiências, as frustrações, os anseios, as aspirações e os sonhos precisam ser compartilhados. São as vivências múltiplas que formarão um corpo. Um corpo a que podemos chamar de ação motivadora. E, com todos motivados, como professores cidadãos, será possível armar os primeiros embates. Calma, não se trata de aniquilar sistema algum, mas de alterá-lo, pois o sistema político não deveria existir para oprimir trabalhadores, mas sim para investir em todos, principalmente naqueles que investem nos outros: os professores.

Pois enquanto houver cambadas no poder, o professor será visto como um mero capacho; quando houver políticos no poder, o professor será visto como um agente da cidadania. Mas a mudança não vem das cambadas, e sim do professor.













sexta-feira, 19 de junho de 2015

AFINAL, QUANDO SÃO AS ELEIÇÕES?




A Globotucana não desiste. Agora criou o Sancho Pança brasileiro, com uma capa para voar a América do Sul na tentativa de trazer o golpe contra o PT de fora para dentro. Além de criar novelas, agora a Globotucana criou um herói que já caiu no humor dos quadrinhos: Aécio Neves. Ele montou sua equipe, foi à Venezuela usar o nariz de Pinóquio (daí outro personagem) para se intrometer numa questão que não permite ao Brasil e a nenhum país se intrometer. Podemos, sim, julgar o que faz Maduro, Obama ou qualquer outro presidente. Mas esse julgamento deve ser moral, político e não físico, a ponto de aterrissar no território dele e gritar: “Não faça isso!”. Mas sabemos que nosso “herói” Aécio está se lixando para presos políticos, pois se fosse seu interesse defender pessoas injustiçadas, começaria por aqui. Conte algum episódio em que ele defendeu alguém. Aécio, em se tratando de política, só sabe ficar na parte que joga pedra. Não nasceu para ter teto de vidro.
Mas o que ele foi fazer mesmo lá Venezuela?
Simples, tudo o que ocorre no Brasil atualmente, fora o que ocorre dentro do governo, tem como cérebro a Globotucana. PSDB e Globo ditam o projeto de retorno da direita ao poder, pelo descontentamento das atuações do governo em áreas que não são do interesse das classes média e alta. A crise por que passa o país não é eterna e deve terminar logo, ou seja, ainda antes das próximas eleições. Acontece que esse retorno do crescimento da forma como era antes (e vale lembrar que o país não deixou de crescer) desencadeará alguns fatores que reverterão a impopularidade de Dilma, afinal, ela não ganhou uma eleição com 90% de rejeição. Além do mais, o nome de Aécio ficou ofuscado enquanto a Globotucana e alguns grupinhos de mauricinhos e patricinhas iam às ruas gritar por impeachment e depois burlar os pontos nos seus empregos. Aliás, ele mesmo se acovardou e não foi marchar por democracia e contra a corrupção. Se a crise não é eterna nem de governo, e Dilma pode ascender nas pesquisas e o PT tem nome para propor em 2018, o impeachment seria a bola da vez para a direita não se desgastar nas próximas eleições e fazer o TSE realizar uma eleição em tempo hábil para projetar Aécio em plena crise, aproveitando o clima de revolta oba-oba das ruas. Seria a panaceia para os problemas de derrotas do PSDB nos últimos anos.
Acontece que o golpe não saiu. Mas por outro lado, ficou a cargo da Globotucana dar ênfase às denúncias de corrupção, apenas às que envolvem membros da base do governo. Observe que nenhum avanço positivo do governo ganha manchetes. Como a figura de Aécio, que pela sua própria natureza política é deformada, continua sem evidência no Brasil, a questão seria criar um fato de notoriedade internacional. Daí a repentina “preocupação” do PSDB com os presos políticos da Venezuela, coadunando com os interesses dos EUA. Mas a ida de Aécio não deveria ser só um vai e vem. Os tucanos sabiam que não seriam bem recebidos por lá. Se já contavam com a hostilização do país vizinho, então eles precisavam fazer o seguinte: projetar que, ao chegarem à terra de Maduro, foram hostilizados e tiveram que voltar impedidos de realizar a “missão de paz”. Na verdade, não seria em terras venezuelanas que deveria acontecer a encenação da peça principal, teria que ser no Brasil, pois esse fato deveria pôr o nome de alguém em oposição direta ao nome de Dilma/Lula. E qual nome? Claro, Aécio. E deu certo. A partir de agora o nome de Aécio passa a ter evidência midiática, já que ele não tem história política para mostrar, ele passa agora ao cenário da Globotucana como o herói que foi violentado na Venezuela enquanto defendia os direitos humanos – inclusive com entrada ao vivo direto do aeroporto em pleno Jornal da Globo. Não chegou a ser um impeachment, mas que foi uma cartada de mestre, isso foi.
Agora, um homem sem expressão política e totalmente ausente das causas sociais deste país passa a ser um personagem da Globo caricaturalmente bem montado, mas patético. Patético, pois é uma marionete a serviço do jogo que o PSDB e a Globo vêm articulando desde 2014 por conta de virem sofrendo derrotas nas últimas eleições presidenciais.
Embora pareça que o país viva o seu momento mais corrupto da história, na verdade ele passa pelo momento mais investigativo. O que deve acontecer e pelo que todos têm que lutar é para que todos os culpados sejam condenados e punidos, quem quer que seja. Então, a projeção de toda corrupção do Brasil sobre o PT e a santificação do PSDB não se trata de uma questão ética, moral ou mesmo política. Trata, sim, de eleições. Eleições que a Globotucana está antecipando. Por isso, se alguém quiser uma explicação sua sobre o que está acontecendo no nosso país, responda: são as eleições.