terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O CRISTANISMO ANTICRISTO



Por Mirinaldo
Já falei algumas vezes a certo público: “Leiam vocês mesmos o Evangelho e vão descobrir que ninguém vive em Cristo”. E não vive mesmo. Não estou me referindo a extensas horas, dias, meses, anos, à vida toda de dedicação às realizações fidedignas aos compromissos de cunho templário, de calendário bem cumprido de presença em eventos religiosos. Nem ao pagamento do dízimo religiosamente a cada mês. Muito menos aos louvores criativos, bem ritmados, introspectivos, intimistas, envolventes enquanto os ouvimos e cantamos. Também não me refiro às superpregações, aos megaeventos religiosos, aos cantores e pregadores popstars, às cenas de milagres, às curas, nem aos seus efeitos eufóricos, extasiantes sob vozes potentes e berrantes com suor no rosto. Digo que também não me refiro à decoreba de versículos, às leituras intensas da Bíblia ou aos cursos de formação em templos ou em retiros espirituais.  Ainda não me refiro às atitudes de “caridade” com cestas básicas de natal que algumas igrejas fazem, desde que as fotos sejam logo postadas. Não me refiro a fechar os olhos, chorar, cair de joelhos, manifestar convulsão pelo corpo todo, gritar, falar em línguas (que Jesus nunca falou), dar testemunho de que saiu da pobreza e passou de um carro de mão a uma Ferrari, em um mês depois do batismo em que “aceitou Jesus”, numa premissa de que antes se adorava ao Diabo porque era católico. Também não estou me referindo às postagens em rede sociais sobre “Digite seu amém”, fotos de famílias e casais (heteros) “felizes” associadas a frases bíblicas ou àquele “Glória!”, “Oh glória!”, que mais parece estar chamando alguma senhora chamada Glória. E menos a escutar pregações suaves ou coercitivas, em que quem fala exalta a si mesmo como escolhido e que os que o seguem serão escolhidos também. Enfim, nada disso (e muito mais!) é prova da vivência do Evangelho. Tudo isso são apenas ritos que só valem por si mesmos. Nunca se estendem a um milésimo de segundo sequer da vida em ação fora dos templos. Acabam-se em hipocrisias, conforme dito pelo próprio Cristo. E antes que alguém rebata afirmando que se tratam de eventos que têm natureza de confinamento e por isso são assim, digo que o problema é justamente este: neles fica tudo o que é considerado religioso, mero cristianismo, mas nunca Cristo. Ou seja, o cristianismo tornou-se rito com local e hora marcados.
Cristo colocou-nos, para viver o Evangelho, o que podemos chamar de ato sobre-humano. Está muito além de nós. Não há prova espiritual maior em toda a história que seguir fielmente o Evangelho. Só agirmos como meros seres humanos reconhecedores do pecado nunca será suficiente. Imagine o quanto é sobre-humano perdoar setenta vezes sete, abandonar ou não querer possuir riquezas, viver em condições financeiras e de posses igualmente o seu vizinho pobre, repartir o seu lucro para não acumular fortunas, evitar todos os luxos, não cobiçar, abrir mão do que tem para viver em simplicidade, nunca querer ser rico (“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus” – Jesus), ajudar os mais fracos até quando você for fraco também, ajudar o próximo sem qualquer propaganda de que você fez isso, pagar o dízimo sem esperar que seus bens se multipliquem, emprestar e não esperar que se devolva, dar a outra face, orar sem que ninguém na Terra saiba disso, ser honesto, ser fiel, jejuar sem nenhuma propaganda desse feito, amar o seu inimigo, abandonar-se para viver em função dos outros. E por aí vai. O ser humano consegue tal vida verdadeiramente evangélica? Pergunto, pois servir a Deus, seguindo em vida o Evangelho, não tem nada de fácil. Se você diz que é feliz servindo ao Senhor, então você não pode esperar a salvação, você é simplesmente um covarde que finge que problemas não existem porque você já está “contemplado” pela salvação, ou seja, os outros é que carreguem suas cruzes. O céu é onde se encontrarão os que peregrinaram pelo mundo sem acúmulo de posses, provando as dores das perseguições dos ricos, dos capitalistas, e, mesmo assim, dando sua vida pelos pobres e mansos. Não foi assim que Cristo fez? Ou ele passou trinta e três anos de joelhos olhando para o céu?
Viver o Evangelho é absolutamente dor, sofrimento, luta contra si, contra as forças materialistas interiores, contra o seu desejo de supremacia sobre os outros. É ir tomar o sofrimento de outrem, conhecer as dores de quem você nunca viu e agir procurando formas de aliviá-las, mesmo quando você as absorve para si. Nunca é tentar tornar o pobre um rico, pois a recompensa terrena retira a recompensa espiritual. Os que pregam que se tem que trabalhar para acumular bens são os que estão de olho nesses bens, pois sobre essas posses haverá as obrigações religiosas do dízimo, muito rentáveis para o acúmulo dos donos das denominações. São ideias que obrigam o cristão a trabalhar sob o pretexto de que Deus retribui em dobro o que a ele é dado. Isso não é e nunca foi Cristo (e sim cristianismo), é uma prática copiada do sistema financeiro, quando o que se deposita deve ser recolhido com juros e correções. Deus seria um negociador. Mas o gerente é o dono da denominação. É o capitalismo contraindo a religião.
Nesse caso, “Não se pode servir a dois senhores”. Viver o Evangelho e servir ao capitalismo é um discurso hipócrita e absolutamente materialista, nunca Cristo. Para se viver o capitalismo, é preciso, antes de tudo, agir sobre os outros para arrancar deles algo que lhes pertencia pelo direito social, o que pode ser a vaga, o dinheiro, a terra, a casa, o salário, o voto, a plantação, a ideologia e por aí vai. É ter algo como seu. E somente seu. Privado, ou seja, que não é dos outros, nem de Deus. Mesmo que se pague à igreja o seu dízimo religiosamente (nada a ver com a oferta da viúva), o capitalista não está devolvendo nada a Deus, pois dá as sobras, e sobras subentendem que o lucro já foi conquistado. Só se devolve a Deus o que é dele: a produção em comunidade.
Se Jesus recusou todas as riquezas e reinos do mundo quando o Diabo o tentou no deserto, é porque a riqueza não leva mesmo à salvação, já que o reino de Deus não pertence a este mundo. Nesse caso, ganhar a vida no céu é perdê-la na Terra, e não fazer a sua vida se tornar abundante e farta de lucros e posses, pois, para se chegar a isso, você terá de explorar a produção dos outros. Ou seja, outros terão menos que você. E você se lembra da Santa Ceia e do lava pés? Pois são os rituais da humildade em não ter bens e servir aos outros, além de comungar a produção. Ou seja, Jesus não deu pão e vinho como forma de pagamento, mas como forma de comunhão em que todos comem o que todos também produzem. E isso exige esforço, luta, abnegação, nunca interesse e comodidade. Nesse caso, o capitalista está fora, pois ele paga como forma de manter para si a parcela maior e nisso o Evangelho não consiste. Quem disser o contrário, é somente capitalista.
Se você ainda assim disser que o que a pessoa tem é fruto do trabalho dela, então você é capitalista e anticristo do mesmo jeito. Pois o trabalho também é uma forma de comunhão dentro do cristianismo verdadeiro. A hierarquia na produção é horizontal, rotativa e deliberada por grupo. O líder é o norteador dos princípios e dos valores, para que a força não se sobreponha ao bem-comum, mas se foque no suprimento das necessidades de todos. Alegre uma plateia falando isso, mas morra a ter que praticar isso. Nada há de fácil nesse modo cristão de produção. E onde achar tanta força para viver, sem demagogia, numa vida assim, sem ceder aos caprichos dos avanços tecnológicos e das riquezas? A resposta é: achar a nossa sobre-humanidade.
Possuir bens gera uma vida confortável e prazerosa, por isso os cristãos percebem as conquistas como bênçãos, mas desconhecem como a produção se deu. Sobra não é bênção. O salário é sobra do capitalista. O pagamento é sobra do capitalista. O acúmulo também não é bênção. Lucro não é bênção. Portanto, oferecer a Deus o agradecimento por uma vida confortável, considerando que você não passa as necessidades que os outros passam por ter seu salário ou seu lucro certo, é hipocrisia, é prática adotada do capitalismo, é exibição social da sua vida como forma de mostrar que você realizou uma superação, que venceu as dificuldades. Ou seja, uma vida tida como de superação é uma vida anticristo, pois você deixou seus semelhantes para trás. Não há nada que agracie tal ato no Evangelho (ao menos nos Evangelhos verdadeiros).
Atualmente, embora haja uma propagação sobre Cristo, ela é apenas comercial, capitalista, política, para fins fora do Evangelho. Se durante dois mil anos não foi possível pregar corretamente a palavra de Deus e ela se tornou mero pano de fundo do capitalismo, então este vence em qualquer arena onde a disputa seja a moral e a ética. Estas seguem os moldes do lucro e das ideologias que defendem o capital. Numa guerra em que disputem a direita e a esquerda, por exemplo, o Evangelho não aparecerá unilateralmente. Nesse caso, mesmo ele sendo citado como argumento, o seu efeito é inútil, pois nunca servirá aos interesses capitalistas em essência, mas servirá perfeitamente como recurso de indução populista. Moral e ética, assim, são atores de conveniência totalmente aquém do Evangelho.
Os que defendem que Deus intervém em favor da força e da segregação das raças, ou que vale a tortura, a misoginia, a homofobia, a violência, a ditadura, ou ainda que os humanos sejam vistos sob a ótica do naturalismo, na verdade defendem não o Evangelho, mas suas visões em conformidade com os interesses que lhes foram implantados em face da alienação terrena alimentada pelo falso evangelho. Se não se vive uma ideia, então ela serve para dizer qualquer coisa. Nesse caso, se não se vive o Evangelho, então se pode citar qualquer trecho da Bíblia, extasiar o público, e temos um “ensinamento” bíblico postulado na falácia de um valor moral e ético tão aparentemente profundos que para quebrar tal afirmação só mesmo outra falácia, desnuda da essência de Cristo, mas recheada de cristianismo pirotécnico. A tortura passa a ser vista como legítima, pois os humanos podem definir sem Deus – mas com pauta nos seus versículos – o que é sagrado ou não. Se a tortura atingir os meus adversários, então ela é sagrada. Quando a dor dos outros me é insensível, eu sou apenas cristão, não de Cristo. O cristão pauta suas atitudes numa pretensão materialista, em favor do capitalismo, meio ideal que mina os lucros sobre a força do trabalhador. Se a dor dos outros me toca, passo do cristianismo para Cristo. Pois Cristo nunca cedeu à tentação de ter, mas entregou-se inteiro para ser, algo que nos é sobre-humano.
O campo político ajuda a desmascarar o cristianismo do verdadeiro Cristo. O primeiro foi perfeitamente planejado para os fins do materialismo terreno. Saiu do laboratório romano para institucionalizar as relações de poder e força. Cristo mesmo não cedeu a nada. Por isso morreu. Assumir uma bandeira em que o Brasil seria acima de tudo e Deus acima de todos não esconde a farsa do falso cristianismo, pois revela simplesmente que o materialismo cabe ao homem e este caberia a Deus, mas este deve ficar longe das conquistas materiais daquele, apenas abençoar o ouro cavado pela criatura. Nesse caso, Deus só serve para a ideia de que os que conquistam são gloriosos e benditos, afastando os que laboram em prol das propriedades fartas dos grandes. Nunca o Evangelho verdadeiro viveria aí.
Além da indiferença à dor do outro, o cristão do falso cristianismo, a fim de manter seu foco em conquistas dentro dos ideais do capitalismo, é também favorável a que se provoque a dor no outro. Daí vale lançar sobre o próximo qualquer forma de ódio, xenofobia, misoginia, homofobia, racismo, machismo, fascismo, feminicídio, homicídio, intolerância, tortura e morte. Mas para que tal processo seja eficiente e tido como cristão (falsamente), há que se eleger quem não comporá o grupo a ser perseguido. E não são os fracos que criam os certames. Eles só podem ocupar ou o papel de massa para avolumar a opressão ou para serem as vítimas. As regras vêm dos grupos de supremacia. Eles têm cor (branca), origem (europeia), ideais (lucro), sistemas (capitalismo), ideologias (fascismo, nazismo) e atitudes (preconceito, violência). Mas como estão a serviço do poder, acabam por sujeitar aos seus interesses os grupos menos favorecidos. Daí a manipulação do Evangelho para atingir o pacto da mediocridade. Sobre as palavras de Cristo passa a valer o que dizem os pregadores e não mais o próprio Cristo. Temos uma profecia muito mais satânica que cristã. Tudo passa então ao completo interesse da ascensão social, completamente sem o viés de Cristo, já que seu Evangelho é outro.
Daí que você observar um ditador alegando que matará em nome da ordem, da justiça e dos valores cristãos e ter milhões que o aplaudam não deve soar estranho. Mas claro que sempre devemos dar um olhar combativo, pois quem souber o que é o Evangelho, por ele deve lutar. Os conformados não fazem qualquer alteração, pois o comodismo capitalista encarcera bons alienados na leitura interpretada pelos que ecoam a voz dos sistemas opressores.
Também você não deve arregalar os olhos quando alguém com uma bíblia na mão defender o aborto, a pena de morte, o porte de arma, a execução sumária de pobres, negros, índios, mulheres e homossexuais, pois você está querendo ver Cristo aí, mas você ainda não entendeu que se trata apenas de cristianismo, um conceito amplamente moderno de usar o nome de Cristo em prol de sistemas capitalistas que sempre alteraram as versões bíblicas para se adaptarem ao trabalho, ao consumismo e ao lucro.
Portanto, a violência a que chegamos hoje no Brasil não ocorre por conta da falta da palavra de Deus, mas sim porque o homem não o deixou falar, apenas fez as interpretações que lhe interessavam e lhe interessam até hoje. O único sistema que realmente se sobrepõe a todos os demais é o capitalista. O cristianismo apenas é uma veia desse sistema principal. E se um pobre, o único agraciado pela salvação eterna, segura a bandeira dos sistemas superiores e opressores, é porque, de novo, trata-se de um reles cristianismo. Cristo, mesmo, está esperando que sua palavra seja aberta e vivida, pois em algum momento ninguém mais suportará esse cristianismo anticristo. E, então, vem o fim.

Como Bozo acaba dizendo que o PT está certo!



Por Mirinaldo
Qual o único problema que Bozo e seu governo veem na educação? Resposta: ideologia. Eles querem fazer um “limpa” no ensino com o discurso idealizado e romântico da direita de que deve haver apenas o conteúdo puro. Calma aí: eu disse “direita”? Mas a ideia não é retirar a ideologia do conteúdo? Como se faz isso? Eu e milhões de brasileiros, além de milhões pelo mundo, queremos saber! Mas nunca vamos saber! Nunca mesmo! Isso é pão e circo. Pura balela. Falta de gestão. Se o Bozo imagina que se deve expurgar a ideologia do ensino em prol do que a direita quer, então não está havendo eliminação, mas troca de ideologia.
Você se lembra da louca “Escola Sem Partido”? Pois é, ela foi arquivada. Mas era o sonho do Bozo e tinha o apoio dele. A ideia era retirar alguns debates da escola, como direitos humanos, sexualidade, gênero, intolerância, preconceito, feminismo, feminicídio, violência, drogas, etc., tecnicamente chamados de temas transversais. Ou seja, quer se criar uma bitola de conteúdos sem contexto, sem aplicabilidade no mundo real. Chegou-se até a se propor a retirada de disciplinas, como Filosofia e Sociologia, como forma de eliminar de vez conteúdos mais reflexivos. Isso porque o governo não quer cidadãos pensantes, ele quer cidadãos consumidores, votantes, baratos e que sejam seus apoiadores.
O governo acusa o PT de ter implantado a ideologia acima na educação. Na verdade, essa ideologia não é cria do PT, mas de um processo muito maior em escala global. Tem a ver com as vertentes de direitos humanos e de diretrizes universais para que os países alcancem certo patamar de desenvolvimento. Esse desenvolvimento, antes, voltava-se para uma visão mais bancária e capitalista (ao que o Bozo quer voltar). Agora, foca-se mais na integridade e nas garantias fundamentais de vida de todos os humanos, via políticas sociais. É certo que isso ainda é muito teórico, por isso é uma ideologia, mas que já deu passos significativos. Ou você acha que retirar 36 milhões da pobreza não é humanamente positivo? Se o Bozo atribui todo esse processo ao Partido dos Trabalhadores e à esquerda como um todo, então há que se ter isso como um elogio, já que duas coisas pesam realmente aí: primeira, não existe nenhum objeto ou símbolo social sem ideologia e o contrário disso é enxugar gelo; segunda, política social é o forte de países emergentes como o Brasil, então atribuir tal feito ao PT é mais um elogio.
Mas você sacou qual é a do Bozo? É simples, como não há proposta prática para a educação, tudo que o governo propuser e não der certo, a culpa será da ideologia que não deixará emplacar as medidas bolsomínicas, nunca do governo. Isso ainda retira o foco dos problemas reais da educação. O problema passa a ser um só: o professor. É ele que deverá enxugar o gelo de retirar a ideologia do conteúdo, pois as paredes das escolas podem cair sobre as cabeças dos alunos, mas isso servirá como sacrifício desse profissional, já que foi ele que distribuiu incorretamente as cores azul e rosa, não cantou o hino nacional, não eliminou a variação linguística e não deu aquela saudação honrosa a Ustra e às grandes prestadoras de serviço da segurança pública, como fez o Bozo e o Bozinho: as milícias. E, claro, não ensinou a ter aquele odiozinho básico ao PT.

A SARDINHA E O TUBARÃO



Por Mirinaldo
O desejo de aproximar o Brasil dos Estados Unidos sempre foi digerido na tripa da direita brasileira. E isso só não se concretizou logo porque a gula foi interrompida em 2002, com a vitória de Lula. Prova disso é que, quando houve o golpe para tirar o PT do poder, o PSDB entrou imediatamente no governo Temer assumindo o Ministério das Relações Exteriores, com José Serra. Depois que o partido conseguiu aprovar a liberação para mais potências sugarem a teta do Pré-Sal, retirou-se da base do golpe e foi barganhar a eleição. Ou seja, os EUA estavam habilitados a colocar a mangueira no nosso ouro negro, bastava não haver a esquerda para interromper mais uma vez isso. E as ruas se enchem da elite brasileira, com gritos de “fora corrupção”, uma pele de ovelha com a boca de lobo para abocanhar o poder. Contra a corrupção coisa nenhuma, o negócio era montar logo o palanque para apressar a retomada do Planalto.
E o pato nadou bem, deu certo, a direita chegou ao poder via Bozo. O PSDB ficou “de fora”, mas sua intenção de realizar a política de entreguismo está mais do que garantida no novo governo da moral. Tanto que o Bozinho foi aos States buscar a lição de casa e lá garantiu que o Brasil não será socialista e sim entreguista. Aí vem o Trump e dá aquele elogio à atitude do Bozo por expulsar os médicos cubanos sob alegação de que o Brasil não concorda com o socialismo da ilha. Mas pouco importa o discurso contra socialismo nesse caso, (basta copiar qualquer coisa do Facebook)  porque, afinal, o que está em jogo é fazer o que os States querem. E eles querem afundar a América Latina, tal como vêm fazendo com a Venezuela. Mas precisam de um testa de ferro, ou melhor, uma orelha de burro. Alguém que não se importe com os vizinhos latinos e mande ver contra eles para o regozijo do Norte.
O projeto da terra do Tio Sam é dominar nossa terrinha, mas nenhuma porta lhe foi aberta, isso até a vitória bozista. Isso significa que o novo governo (mais velho do que novo) já se abre totalmente aos mandos norte-americanos e aguarda as suas ordens para liberar os espaços e implementar as políticas neoliberais contra os próprios brasileiros que pensarão estar vivendo uma transformação de país emergente para primeiro mundo, pois perceberão a presença americana física e politicamente aqui. A Amazônia, por exemplo, já está sendo empacotada como presente, pois o Bozo já deu sinais de usar as terras indígenas para implantar megaprojetos e já ofereceu aos índios os espelhinhos modernos de Cabral: royalties (falsos privilégios!), além de partir pra cima do IBAMA para que ele proteja os interesses dos grupos ruralistas e pare com essa de garantir direitos a pequenos agricultores, pois o Bozo já disse que “é difícil ser patrão no Brasil”. E já pra fora o Ministério do Trabalho! As leis também serão alteradas para dar mais chicote aos empresários e mais lombo aos trabalhadores. Até censura ao Enem está vindo aí sob a alegação de que só temas de conhecimento relevante devem cair na prova. Em outras palavras: só o que o Bozo quiser que caia. Aliás, pode cair muita coisa e até voltar o acento de “idéia”.
E tudo isso enquanto assistimos a cenas de um homem humilde, bom e cristão oferecendo cafezinho para chefe de segurança americano, ou comendo cachorro-quente (será que em Marte há cachorro-quente? É preciso de dente para mastigar um cachorro-quente? É normal comer cachorro-quente?) e entregando taça ao Palmeiras, fazendo-nos pensar que ele é tal como nós e nós seremos tal como os States. Em janeiro, já poderemos começar a atirar uns nos outros com a flexibilização do porte de armas, brinquedo que vai fazer os brasileiros se sentirem dentro de uma arena romana (mas inspirada no faroeste caboclo), assim como o cafezinho acima. Já poderemos também dar murros nos professores socialistas, pois também será uma forma de ajudarmos o Bozinho a garantir sua promessa ao Trumpinho e também uma forma de mostrarmos que estaremos resolvendo todos os problemas da educação pela cartilha da depravada Escola Sem Partido, amamentada no seio de orações feitas ao Diabo por políticos pregando evangelismo de quinta categoria, sob a alegação da preservação de valores cristãos de uma elite podre.
E é melhor aprendermos a ser todos entreguistas, pois quando se senta à mesa com Tio Sam, e lhe damos um cafezinho de merda, ele até toma, porque ele sabe muito bem onde está escondido o cafezal. E também sabe quem engole quem quando se trata de um tubarão e uma sardinha sul-americana metida a gringa.

sábado, 23 de dezembro de 2017

SE EU VOTO EM BOLSONARO



Por Mirinaldo 

Já me perguntaram várias vezes se eu votarei em Bolsonaro. 
Respondo com questionamentos. Mostre-me, desde os homens das cavernas até o presente, quando alguma elite defendeu os pobres. Mostre-me em que lugar do mundo histórico alguma civilização tipicamente urbana já viveu sistematicamente em solidariedade, ou seja, dividiu tudo o que produzia entre todos. Mostre-me ainda quando e onde algum sistema político eliminou as desigualdades sociais e implementou um sistema de equidade social. Não perca tempo. Isso nunca aconteceu. Ainda é utopia. Minto. Agora lembrei-me que Jesus Cristo pregou as respostas às minhas perguntas. Mas, também com prego, crucificaram-no, pois é assim que são tratados os que defendem regimes solidários e sistemas democráticos. Sim, aqueles sistemas em que o valor humano se sobrepõe ao materialismo exacerbado defendido pelo capitalismo. 
O capitalismo reinventou Deus, dissolveu-o em formas outras que o tornou uma figura fluida ante o imperialismo dos príncipes do mundo e das riquezas que eles divulgam com a demagogia de que nós também podemos possuí-las, se trabalharmos em prol dos objetivos naturalistas do sistema. Ou seja, que abdiquemos até de quem somos e nos tornemos as máquinas propulsoras dos lucros e do maior afastamento do sonho sul-americano.
Nenhuma religião, cristã ou não, no mundo, tem o poder de impregnar nos homens a força de sua fé verdadeira e tornar o planeta um lugar socialmente seguro, enquanto o capitalismo tem o poder de nos fazer medíocres e rasos de intolerância ao conformismo. Isso seria o mínimo a ser rebatido pelas crenças. Mas não o fazem porque são simplesmente meras religiões que comungam das ambições do Estado. Nesse caso, são suas sucursais. 
Quando uma ideologia imperialista se extrema, ela se torna uma força. E força exerce pressão. A força não se coaduna com o diálogo dentro do processo democrático, pois se assim o fizer será uma força transformada em energia. E a energia revitaliza as massas oprimidas. Daí se pode gerar uma nova força. A força que mais conhecemos, no âmbito não religioso, é o socialismo. Foi e pode ser a única força contra as injustiças sociais. Esqueçam as religiões. Pelo menos pelo que são agora. Elas pertencem ao Estado que se finge de laico. Não são qualquer ameaça a sistema político algum. São, na verdade, mais um partido de base aliada (usando um exemplo à brasileira).
Bolsonaro aparece como alguém que promete fazer o óleo e a água serem uma coisa só. Promete a fusão da ordem do Estado através da aplicação de uma força sobre a desordem ora instalada, como se um Estado idealisticamente perfeito pairasse numa nuvem com um arco-íris ao fundo. Há, na verdade, a proposta de impor uma única voz à nação e deixá-la apenas no plano da audição e subserviência. A ordem e a honra que pregam seus seguidores dizem respeito à pressão estatal sobre as forças (fracas) de resistência. Nesse caso, estamos, sim, falando de um Estado Absolutista, com o monopólio da verdade e da lei. Tudo dar-se-ia pela batida do martelo marcial antirrepublicano. 
Essa política já se defronta com uma das bandeiras mais fortes da democracia: a valorização e o respeito às diferenças. Isso teria de se ser apenas uma questão retórica para legitimar a governabilidade. Em outras palavras, a valorização positiva das diferenças seria uma aberração ao Estado Cristão que, propositadamente manipula a leitura bíblica para uma padronização de comportamento dito ético e ortodoxo. Nesse caso, as igrejas cristãs, principalmente as mais conservadoras, assumiriam um papel de leitoras das tábuas de Moisés sobre como o Estado deveria imprimir suas leis em nome de uma nação “verdadeiramente” cristã. A igreja não se aliaria ao Estado, ela já está aliada a ele, o que caberia a ela seria apenas renovar a catequese quinhentista efervescendo o dogmatismo (por exemplo, forcar-se no aumento do medo e na figura do Diabo como condenação) e não tratar das abordagens sociais. A base para isso seria (como é) a própria Bíblia, mas sem a interpretação popular (como aliás não ocorre). Penso, inclusive, como seria o mundo se o próprio povo interpretasse esse livro(!).
A figura de Bolsonaro está sendo projetada no sentido de convergência entre os valores cristãos (na verdade, dogmas religiosos) e o aparelhamento do Estado. Porém, isso já existe, mas se está pregando que não. E para que serviria afirmar tal proposta? Simples, para a ascensão do protestantismo (com impulso da ala conservadora), para a afirmação da burguesia como detentora dos supervalores, para a hegemonia dos superpartidos da direita, para a eliminação das resistências, para a criação de um Estado uníssono, para a anulação de direitos e conquistas sociais, para a criação de um superpoder sul-americano como forma de imposição de medo em detrimento dos acordos bilaterais do Brasil com seus vizinhos (uma cópia americana da relação States x Oriente) e para uma ordem moralista sobre a sociedade que geraria constantes espetáculos de ações cinematográficas das forças uniformizadas sobre homens e mulheres de vozes antissistema. 
Bolsonaro seria a figura central e não o representante do Estado. Na verdade, pensa-se nele como uma figura macrossistemática, com uma reorganização do poder em que se possa configurar algo como um reinado e não como um mandato, ou seja, que ele seja acima do Estado e não um funcionário deste. Convergiriam para ele as forças intermediárias (primeiramente as religiões conservadoras) e dele irradiariam as normas e discursos orientadores de um comportamento militar sobre as instituições e os indivíduos. 
Muitos afoitos (para não dizer neonazistas) sonham em ver Bolsonaro espalhando as forças armadas e a polícia pela sociedade como forma de marcar a presença do Estado. Em parte, eles estão certos, pois o Estado nunca lhes ensinou a como ver a sua presença e sempre conheceram a ausência dele. Mas também toda a sociedade tem sua culpa, pois nunca cobrou a figura estatal em seu seio. Nesse caso, a abstração do Estado (em só ficar no discurso) fomenta a ideia de urgir por seu comparecimento. E como há uma “desordem” vista apenas sob o prisma da corrupção, o povo não configura de outra forma a presença do Estado que não seja com a força física para combater o sangramento dos cofres públicos e a escalada da violência.
Ninguém agiu para o real combate dentro do próprio desenrolar da democracia para combater a corrupção. Parece que se quer abrir mão do debate sobre a questão e resolver logo, já. É sobre essa ansiedade que se assenta Bolsonaro. Promete urgência urgentíssima. 
Mas os problemas do Brasil não se fecham na violência e na corrupção, falha grave na plataforma de Bolsonaro, pois demonstra que ele mesmo não cria plataforma alguma, apenas analisa o que os indicadores midiáticos afirmam a seu respeito e ele incorpora o que lhe dá melhor popularidade e lhe renderá possíveis votos. A questão social, problema secular no país, não aparece nem como ponderação em seu discurso. Mas por quê? Simples de novo. Resolver os problemas sociais, na mídia, só vai gerar indicadores numéricos. A massa só verá números. Isso não gera um bom símbolo. É tido como abstração. A metodologia de Hitler é um bom (mau!) exemplo de como um poder estatal pode ser visível. Entre números num gráfico na Rede Glopista e uma exibição de uma intervenção forte do Estado para uma adequação “moral” na mesma emissora, qual é mais simbólico? Foi o que Hitler fez e o que fazem as potências quando querem mostrar que têm mais poder. Mostram-se os homens e suas fardas, aí o poder é contemplado.
Outra questão em Bolsonaro é o acidente de percurso que o lançou na empreitada de 2018. A queda dos candidatos indicados pela Globo, PSDB, MDB (antes PMDB), DEM, os ruralistas, os banqueiros, o judiciário partidarista da direita e a alta elite brasileira foram sufocados dentro do caldeirão de corrupção que a mídia pensou que fosse cozinhar só o PT.  O que estava ocorrendo era que havia só dois candidatos: Lula e qualquer um da direita. Desta última não veio. Bolsonaro sai projetado pelos fanáticos por mudanças radicais, não consistentes, mas de grande impacto midiático. Ou seja, há uma plataforma sendo criada, agora, para Bolsonaro que comprova que ele nada fez para construir uma base política que o trouxesse até aqui. Assim como Lula promete romper com a quebra dos direitos, Bolsonaro promete quebrar a corrupção. Nesse caso, ele está aprendendo a lidar melhor com a mídia que o próprio Lula, já que trata de um tema diariamente abordado e dado como irreparável, senão pela força.
E é essa força que ilude certa massa descomposta de visão sócio-histórica-política. Que quer figurar o poder sob forma de ações midiaticamente espetaculares. Então retomo os questionamentos do início deste texto. Bolsonaro recebe NÃO a todas as perguntas. Ele não é estadista para armar o Estado, tampouco representativo dos discursos antagônicos que formam a ideologia miscigenada num país continental como o Brasil. Além do mais, Bolsonaro não apresenta qualquer tendência a uma reestruturação profunda no sistema político, na verdade, é muito retrógrado, pois delegar poder militar para tratar de civismo é a contramão da democracia. E mais, o Brasil está inserido no sistema global da economia e dos acordos internacionais e não tem qualquer condição de rompimento com estes como forma de copiar as ações isoladas de Trump, que cairia no gosto de Bolsonaro. O país é controlado (voltou agora recentemente depois do golpe) pelo FMI, não tem assento significativo na ONU e vai mal das pernas nas relações de acordos comerciais. Bolsonaro poderia chamar a atenção do mundo apenas como um líder que dá ordem de maneira desordenada em conformidade com os interesses baseados no circo romano em que a fera seria a direita branca e poderosa e o gladiador derrotado seria a esquerda estigmatizada pelo ódio aceso pelo espetáculo das operações “anticorrupção” comandadas pela Globo, tucanos e judiciário comitê.
A falta de opção para representar a direita brasileira é tanta que Bolsonaro está sendo projetado apenas pela imagem física semelhante à de um coronel, e pelos adesivos nos carros. Sua história é totalmente ignorada, pois o tempo programado pelos golpistas está se esgotando à medida que as eleições se aproximam. Mesmo sem ter sido o alvo de interesse da mídia manipuladora, Bolsonaro é fantoche ideal para se trabalhar a propaganda de que a esquerda não faz falta (embora não se tenha nada melhor para o seu lugar, uma vez que o câmbio é mais importante que o pobre). Ele converge o ódio coxinha e só servirá para dar o bom show se puder decapitar qualquer um que use vermelho. Fora isso, temos um cidadão brasileiro que ainda precisa conhecer onde fica a barriga do Brasil e não a mão para pegar a arma e atirar na fome. E haja hipocrisia religiosa crescente para sustentar dízimos de miseráveis em nome de Deus, mas entregues ao Diabo. Esses “certos” e Bolsonaro se merecem!
Qual era a pergunta mesmo?