sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Um Deus é por nós



Por Mirinaldo

Dizem que Deus escolheu certos presidentes para representá-lo no poder. Sim, é verdade, há um Deus (também com D maiúsculo) que existe e desejou que assim fosse e cuida dessas coisas. Trata-se do Deus Moderno. É um Deus inventado a partir da incapacidade dos homens de seguirem o Deus Divino. O pecado se tornou mais forte e dominou toda a Terra. Quem conseguiria sofrer em nome do Evangelho do Deus Divino? Quem deixaria tudo deste mundo, socializaria seus lucros, viveria na humildade para segui-lo e aguardá-lo até o momento final? Ninguém! O homem escolheu ser feliz aqui e agora. Já! E vive a sorrir por seguir o seu Deus Moderno. Garante que já está na glória dele. E está. Há também um reino que foi atribuído a esse Deus: a própria Terra. Cansado de não visualizar paraíso algum, o ser humano criou a felicidade terrena sobre os bens da natureza e da exploração de uns sobre os outros. E naturalizou a riqueza como sinal de vida plena neste reino. Trocou-se a vida eterna pela vida da morte. Por isso, enquanto se vive, procura-se alcançar toda a felicidade que este mundo pode dar. Dessa maneira, o pecado também mudou. Passou-se a se pecar quando não se está conquistando nada. Se você não tem ambições e não explorou ninguém, então é você quem está pecando. E as respostas do Deus Moderno são rápidas: o sinal de que alguém está sendo agraciado por ele é a prosperidade. De um carrinho de mão a um 4x4: eis o selo da confirmação da bênção. E se vive a atmosfera do reino feliz e pleno. E quanto ao Evangelho? Os seguidores do Deus Moderno leem o mesmo Evangelho do Deus Divino, pois já está pronto, já que a corrida pelo lucro não deu tempo para criar outra escritura. Mas mudou totalmente a interpretação. A palavra passou a ser compreendida de acordo com a linha dos fatos sociais, políticos e econômicos (principalmente econômicos) e do quanto os homens lucram nessa trajetória. Ou seja, conforme os planos terrenos. Por exemplo, quando se diz “Deus acima de todos”, trata-se do Deus Moderno, pois o Deus divino colocou-se AO LADO dos homens quando seu filho foi entregue à morte. O Deus Divino tem apenas mais poder que os homens, mas promete dividir todo o seu paraíso com os que conseguirem viver sob suas difíceis leis aqui na Terra, aquelas leis que a humanidade não conseguiu seguir uma vírgula sequer e, por isso, criou o Deus Moderno, pois cansou de esperar Moisés voltar do monte. “Deus acima de todos” é frase de poder político, e se pertence à política, pertence ao Deus Moderno. O Deus Divino não se comprometeu com a política dos homens desde o Evangelho de Cristo. Os planos do Deus Divino passam pela Terra, nunca ficam nela, tanto é que ela será destruída em prol de uma nova forma de vida: a eterna (e não a terrena). Os planos do Deus Moderno são todos aqui. Por isso a imagem desse Deus é facilmente projetada nos homens. Nesse caso, os que representam o Deus Moderno conferem aos presidentes a bênção e a predestinação. Mas isso não está errado, está na lógica dos que procuram manter o mundo como ele está, pois é dessa maneira que se têm gerado todos os grandes lucros dos grandes representantes do Deus Moderno. Quando se nega que a natureza está sendo destruída, que não há fome, ou que os problemas sociais estão desaparecendo é exatamente o que prega o Deus Moderno, pois ele precisa provar que seu reino está dando certo. Se, para garantir que se pense assim, for necessário que se persigam as pessoas contrárias, isso deve ser feito, pois o Deus Moderno não acredita que elas sofram qualquer dor. Para ele, não há tortura, há correção. Tanto é que era esse mesmo Deus que estava reinando na escravidão e não impediu o chicote sobre a raça negra, a raça que ele não privilegia. Também era ele que via o abrir e fechar dos fornos nos campos de concentração nazista para cremar os corpos dos judeus ou quando apertavam o gatilho assim que as armas estavam apontadas para as cabeças de homens, mulheres e crianças judaicas. Ele estava lá. E nada fez. Os homens agiram e agem em nome do Deus Moderno alegando seguirem princípios de justiça e força. Por isso a dor é apenas um processo normal. Também há uma fé que se manifesta na crença ao Deus Moderno. Trata-se de celebrar o seu nome acima de todos e de todas as coisas, sem dar qualquer olhar horizontal ao mundo. Se as pessoas ao redor sofrem, a razão e as causas estão nelas mesmas. Se elas não estão com o Deus Moderno, então está aí o motivo de sofrerem. Sabe-se que, para seguir o Deus Divino, deve-se seguir um caminho que se abre por uma porta estreita, que se devem abandonar todos os vícios, luxos e riquezas. Deve-se amar profundamente o seu inimigo e perdoá-lo setenta vezes sete. Isso é dor. Isso emprega sofrimento. É um abandonar-se a si mesmo. Seguir ao Deus Moderno se dá por outra forma de fé: a prosperidade. Ou estar ao lado dos que prosperam nos bens terrenos. Feito isso, se você se aproximou dos que receberam o desígnio do Deus Moderno e vivem prósperos ou se você é próspero, então está aí a sua fé. Diante do Deus Moderno se pode afirmar que se é salvo, porque se vive feliz. Já diante do Deus Divino, só ele pode dar tal garantia. Isso deixa o homem inseguro, sem respostas ao que ele faz. Já o Deus Moderno recompensa todos os atos imediatamente. Um exemplo: caso se dê uma oferta ou dízimo ao Deus Moderno, ele se compromete a multiplicar o valor depositado. Para o Deus Divino, a oferta e o dízimo são partilha que realizam a integração entre a graça divina e a realização mínima do materialismo (a pobreza compartilhada). Ou seja, o Deus Divino não oferece troco nem rendimento algum aqui na Terra. E tal oferta ou dízimo são apenas parte da prática da fé. O Deus Moderno adora ser adorado. A imagem dele só se volta para si. Já a imagem do Deus Divino é múltipla, pode ser contemplada na dor do próximo, justamente o que representa o fracasso do materialismo, o que não soube explorar ninguém, por isso deve ter a dor como correção e justiça. Pobreza é sinal de pecado para o Deus Moderno, pois ele entende a Terra como razão para prosperar e não para conviver e fraternidade. Aliás, fraternidade para o Deus Moderno é submissão a uma lei de garantia da ordem. Ou seja, é quando há obediência e prática de valores conservadores que criam a crença de felicidade em grupo. E quem garantirá isso serão os líderes políticos sobre os líderes religiosos que seguem o Deus Moderno. Os líderes religiosos atendem imediatamente aos políticos, pois absorvem parte do poder e não precisam dar satisfação ao Deus Moderno, pois, se estão cuidando bem das coisas terrenas, então a fé já está contemplada. Quanto a Jesus Cristo, o filho do Deus Divino, é tratado apenas como um herói romântico. O Deus Moderno não tem filho algum. Ele tem os seus criadores: os homens terrenos. Quando se projeta a imagem de Jesus como uma figura romântica, passa-se a tê-lo como distante da Terra, por isso só aparece nas celebrações dos seguidores do Deus Moderno para ser adorado e glorificado pelo que fez. Quanto ao que ele ensinou, a coisa mudou também. Jesus Cristo sendo concebido como aquele que fez não teria condições de permitir que os homens pensassem sobre o que deve ser feito na Terra para a peregrinação até o juízo final. Se assim fosse entendido, os planos do Deus Moderno cairiam por terra. Ou seja, a vivência real do Evangelho do Deus Divino poria todos os homens em total depressão ante o materialismo do mundo. Então, por conta disso, se pergunta: Por que ainda se fala de Jesus? Simples, porque ele foi a única materialização de uma ideia divina, algo tão sublime aos homens. Nesse caso, a imagem concreta de algo tão abstrato. Jesus é usado pelos seguidores do Deus Moderno para alimentar ideias espirituais e ritualísticas, nunca, jamais, de maneira alguma para se pregar o Evangelho do Deus Divino. Daí que não se pode conceber a imagem de Jesus fora da forma de uma pintura de um homem despolitizado e frio que agora está no céu e já fez a sua parte. E que só aparece aqui na Terra quando invocado em templos, o lugar dado a ele pelo Deus Moderno. Cristo está petrificado. Tal imagem deve ser a internalizada nos homens para que percebam que não se deve se mover para mudar o mundo, pois Jesus já fez isso por nós e agora está sacralizado nos altares junto às madeiras e aos mármores. Em bom português: matou-se Jesus pela segunda vez. E segue-se a política ditada pelo novo Deus. O homem passou para a zona de conforto e, mesmo convivendo com os problemas do mundo, entende que são as superações das dificuldades que trazem recompensa religiosa. E superação significa vencer os inimigos. E quem são eles? Os próprios humanos. Há uma canção religiosa que diz que os que zombaram de você verão você no palco enquanto eles ficam na plateia. Sabe o que é isso? Doutrinação do Deus Moderno, a que consiste em afirmar que se está junto a esse Deus quando se prospera financeiramente. Quanto ao Diabo, é visto como inimigo, mas com atitudes humanas. Ele é citado quando se quer atacar indiretamente alguém ou quando se quer transferir para ele a maldade que algum seguidor político do Deus Moderno cometeu. Os seguidores do Deus Moderno não falham, são perseguidos. Por isso cantam vitórias quando superam alguém. E segue a luta para se propagar cada vez mais o Deus Moderno. E já está nos quatro cantos da Terra. Tornou alguns homens milionários e outros mil vezes mais pobres. Estes últimos seguem sendo vistos como sem bênção alguma do Deus Moderno, a mercê do sofrimento mundano por terem aceitado esperar as graças do Deus Divino e zombados por não saberem ou não quererem trocar essas graças de um Deus por outro. É custoso a eles tal prodígio, mas são os que ainda garantem o mundo por inteiro, pois, por mais que o Deus Moderno tenha avançado pela Terra e pela história, ele não tem qualquer poder sobre o que ele não fez: a existência. Ele é produto do homem e não o contrário. Portanto, não pode impedir nem permitir que o mundo continue. Ele não salvará nem os seus, pois é uma ideia. A palavra final estará com o Deus Divino, pois ele iniciou o processo que os homens pensam que conseguiram mudar. É tudo uma questão da chegada do momento certo. E não nos esqueçamos: um desses Deuses é por nós.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Vamos assistir a esse filme?

Por Mirinaldo

O governo Bozo fez um corte bilionário na educação. Para quem não perdeu seu voto, isso não é novidade. Mas é assustador mesmo assim. O ditador divulgou a premissa de priorizar a educação básica, mas ela foi atingida em cheio: corte de 2,4 bilhões de reais. Não perderei meu tempo com os acéfalos que comemoram a ideia do quanto pior melhor, pois não sabem o que é melhor nem o que é pior e muito menos são capazes de dimensionar um problema dessa magnitude, afinal, a educação não faz falta aos que nasceram unicamente com instintos e um título de eleitor na mão. Vamos ao que se quer com esse golpe. Há três questões em jogo.
A primeira diz respeito ao que a direita esquizofrênica chama de limpeza ideológica. Em bom português: eliminar o elefante branco da sala. Eu estava brincando: é eliminar o fantasma que assombra o palácio: o socialismo. Detalhe: sem socialismo. A falta justamente de uma educação mais protagonista (temos aí me culpa) levou muitos zeros pensantes a conceber a existência do comunismo e do socialismo no Brasil sem conhecimento de causa, mas o que tem causado um espírito alucinógeno de pseudointelectualismo. Ou seja, quem disser que o PT, o PSOL, o socialismo e o comunismo acabaram com o Brasil está devidamente diplomado. Não entrarei no mérito de discorrer sobre o que é socialismo e comunismo (em outro momento, prometo) e brincar de verdade-desafio sobre o tema. Oxalá tivéssemos um socialismo ou um comunismo (este, que fosse de base cristã de verdade!). Falo sério mesmo! E sem esse diploma de Bozoburrologia. O ataque do ditador às universidades, segundo ele, se justifica pelo fato de essas instituições promoverem o pensamento crítico, reflexivo, científico e filosófico. Tô brincando, ele não falou assim. Ele disse que quer expulsar o pensamento de esquerda. Coisa de quem se aposentou cedo demais, ganha bem e não tem dedicação a estudo algum. Na verdade, esse discurso é a balinha da eleição, lembra que os caras distribuíam balinha para as crianças e elas viam tudo doce? Pois é, enquanto a gente fica bancando o sabidão da direita sobre como se cospe em discurso socialista, o plano segue  adiante. Vamos assistir a esse filme?
Vamos à segunda questão. Ok, enquanto segue o filme dos “Caça-socialistas” (Você se lembra dos Caça-fantasmas?), a segunda questão diz exatamente respeito à falta de projeto do Bozo para a educação do país. Mostre um. Mostre meio. Não, deixe, não perca seu tempo. Não existe projeto do (des)governo para uma caneta sequer. Quando, numa ditadura fria, como a que estamos vivendo agora, o ditador é inerte e despreparado, a ação truculenta é a única saída para ele mostrar que está lá no poder. Mas somente consegue mostrar isso. Não permite ser questionado, contrariado, então despeja seus desmandos como marca de que há um governo ali. Fora isso, teria que ficar como alguém disse certa vez: Se ele não roubar, já vai valer a pena. Nossa, um ladrão parado! A pena do salário mínimo, a pena do desemprego, a pena da submissão aos EUA, a pena da homofobia, a pena da arrogância e vai se soltando a pena por aí. Mas há um detalhe: esta segunda questão ainda não é a finalidade, assim como a primeira, a de caçar socialista alienígena. A primeira e a segunda questão são a parte do palco, são meios. Lá nos bastidores está a real finalidade: privatizar a educação. Bom, vou parar o meu texto. Daí pra frente a questão é a seguinte: se os diplomados no Bozonarismo têm, além de retórica primata, uma boa poupança, então comecem a comemorar. Mas primeiro olhem a poupança! Eu disse a poupança! Porque quando a coisa for realmente implantada, não vai haver bolsa discriminando quem assistiu ao filme “Os Caça-socialistas” nem para quem estava atuando nele. Por isso, todo discurso deve ter uma reserva. Toda atitude, uma ressalva. E todo bolsomínio, uma poupança. Porque quando a educação for de vez para o bolso dos capitalistas, então eu quero ver quem vai nos emprestar uma graninha. O Queiroz eu sei que não é.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Ele deve ser livre



Por Mirinaldo
O professor é um agente de libertação, por isso não pode viver preso. O engessamento de sua prática é uma prisão. E é também o exílio da liberdade. Se o saber tem como orquestra o poder,  então cabe ao professor romper as notas musicais e dar novo tom ao canto. Daí é que vem o espírito de transformação. Os ditames do formalismo exacerbado não significam nada além de força. Tentar dar moldes com contornos rígidos ao saber é inteiramente uma falta de saber,  pois este, por si só, é uma asa, nunca mordaça ou corrente. Se não estamos mais nas cavernas, então alguma luz nos arrancou de lá. E sabedoria é o seu nome. Não pode existir o saber e seu possuidor viver encarcerado. Se assim for, morre a arte,  a poesia,  a filosofia, a cultura e o termo “homem”. No âmbito que envolve toda e qualquer mudança social a figura do professor só tem como sinônimo a libertação. E, mesmo ele não sendo o dono do saber, Deus não delegou a ninguém mais tamanha tarefa de preservá-lo e difundi-lo. E para tal, nenhuma forma abrupta deve se sobrepor aos modos que a própria natureza dessa missão condiciona: a liberdade. E à sabedoria não se delegam fiscais, apenas agentes. Fora isso, as asas se ferem e caem... dolorosamente.

O CRISTANISMO ANTICRISTO



Por Mirinaldo
Já falei algumas vezes a certo público: “Leiam vocês mesmos o Evangelho e vão descobrir que ninguém vive em Cristo”. E não vive mesmo. Não estou me referindo a extensas horas, dias, meses, anos, à vida toda de dedicação às realizações fidedignas aos compromissos de cunho templário, de calendário bem cumprido de presença em eventos religiosos. Nem ao pagamento do dízimo religiosamente a cada mês. Muito menos aos louvores criativos, bem ritmados, introspectivos, intimistas, envolventes enquanto os ouvimos e cantamos. Também não me refiro às superpregações, aos megaeventos religiosos, aos cantores e pregadores popstars, às cenas de milagres, às curas, nem aos seus efeitos eufóricos, extasiantes sob vozes potentes e berrantes com suor no rosto. Digo que também não me refiro à decoreba de versículos, às leituras intensas da Bíblia ou aos cursos de formação em templos ou em retiros espirituais.  Ainda não me refiro às atitudes de “caridade” com cestas básicas de natal que algumas igrejas fazem, desde que as fotos sejam logo postadas. Não me refiro a fechar os olhos, chorar, cair de joelhos, manifestar convulsão pelo corpo todo, gritar, falar em línguas (que Jesus nunca falou), dar testemunho de que saiu da pobreza e passou de um carro de mão a uma Ferrari, em um mês depois do batismo em que “aceitou Jesus”, numa premissa de que antes se adorava ao Diabo porque era católico. Também não estou me referindo às postagens em rede sociais sobre “Digite seu amém”, fotos de famílias e casais (heteros) “felizes” associadas a frases bíblicas ou àquele “Glória!”, “Oh glória!”, que mais parece estar chamando alguma senhora chamada Glória. E menos a escutar pregações suaves ou coercitivas, em que quem fala exalta a si mesmo como escolhido e que os que o seguem serão escolhidos também. Enfim, nada disso (e muito mais!) é prova da vivência do Evangelho. Tudo isso são apenas ritos que só valem por si mesmos. Nunca se estendem a um milésimo de segundo sequer da vida em ação fora dos templos. Acabam-se em hipocrisias, conforme dito pelo próprio Cristo. E antes que alguém rebata afirmando que se tratam de eventos que têm natureza de confinamento e por isso são assim, digo que o problema é justamente este: neles fica tudo o que é considerado religioso, mero cristianismo, mas nunca Cristo. Ou seja, o cristianismo tornou-se rito com local e hora marcados.
Cristo colocou-nos, para viver o Evangelho, o que podemos chamar de ato sobre-humano. Está muito além de nós. Não há prova espiritual maior em toda a história que seguir fielmente o Evangelho. Só agirmos como meros seres humanos reconhecedores do pecado nunca será suficiente. Imagine o quanto é sobre-humano perdoar setenta vezes sete, abandonar ou não querer possuir riquezas, viver em condições financeiras e de posses igualmente o seu vizinho pobre, repartir o seu lucro para não acumular fortunas, evitar todos os luxos, não cobiçar, abrir mão do que tem para viver em simplicidade, nunca querer ser rico (“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus” – Jesus), ajudar os mais fracos até quando você for fraco também, ajudar o próximo sem qualquer propaganda de que você fez isso, pagar o dízimo sem esperar que seus bens se multipliquem, emprestar e não esperar que se devolva, dar a outra face, orar sem que ninguém na Terra saiba disso, ser honesto, ser fiel, jejuar sem nenhuma propaganda desse feito, amar o seu inimigo, abandonar-se para viver em função dos outros. E por aí vai. O ser humano consegue tal vida verdadeiramente evangélica? Pergunto, pois servir a Deus, seguindo em vida o Evangelho, não tem nada de fácil. Se você diz que é feliz servindo ao Senhor, então você não pode esperar a salvação, você é simplesmente um covarde que finge que problemas não existem porque você já está “contemplado” pela salvação, ou seja, os outros é que carreguem suas cruzes. O céu é onde se encontrarão os que peregrinaram pelo mundo sem acúmulo de posses, provando as dores das perseguições dos ricos, dos capitalistas, e, mesmo assim, dando sua vida pelos pobres e mansos. Não foi assim que Cristo fez? Ou ele passou trinta e três anos de joelhos olhando para o céu?
Viver o Evangelho é absolutamente dor, sofrimento, luta contra si, contra as forças materialistas interiores, contra o seu desejo de supremacia sobre os outros. É ir tomar o sofrimento de outrem, conhecer as dores de quem você nunca viu e agir procurando formas de aliviá-las, mesmo quando você as absorve para si. Nunca é tentar tornar o pobre um rico, pois a recompensa terrena retira a recompensa espiritual. Os que pregam que se tem que trabalhar para acumular bens são os que estão de olho nesses bens, pois sobre essas posses haverá as obrigações religiosas do dízimo, muito rentáveis para o acúmulo dos donos das denominações. São ideias que obrigam o cristão a trabalhar sob o pretexto de que Deus retribui em dobro o que a ele é dado. Isso não é e nunca foi Cristo (e sim cristianismo), é uma prática copiada do sistema financeiro, quando o que se deposita deve ser recolhido com juros e correções. Deus seria um negociador. Mas o gerente é o dono da denominação. É o capitalismo contraindo a religião.
Nesse caso, “Não se pode servir a dois senhores”. Viver o Evangelho e servir ao capitalismo é um discurso hipócrita e absolutamente materialista, nunca Cristo. Para se viver o capitalismo, é preciso, antes de tudo, agir sobre os outros para arrancar deles algo que lhes pertencia pelo direito social, o que pode ser a vaga, o dinheiro, a terra, a casa, o salário, o voto, a plantação, a ideologia e por aí vai. É ter algo como seu. E somente seu. Privado, ou seja, que não é dos outros, nem de Deus. Mesmo que se pague à igreja o seu dízimo religiosamente (nada a ver com a oferta da viúva), o capitalista não está devolvendo nada a Deus, pois dá as sobras, e sobras subentendem que o lucro já foi conquistado. Só se devolve a Deus o que é dele: a produção em comunidade.
Se Jesus recusou todas as riquezas e reinos do mundo quando o Diabo o tentou no deserto, é porque a riqueza não leva mesmo à salvação, já que o reino de Deus não pertence a este mundo. Nesse caso, ganhar a vida no céu é perdê-la na Terra, e não fazer a sua vida se tornar abundante e farta de lucros e posses, pois, para se chegar a isso, você terá de explorar a produção dos outros. Ou seja, outros terão menos que você. E você se lembra da Santa Ceia e do lava pés? Pois são os rituais da humildade em não ter bens e servir aos outros, além de comungar a produção. Ou seja, Jesus não deu pão e vinho como forma de pagamento, mas como forma de comunhão em que todos comem o que todos também produzem. E isso exige esforço, luta, abnegação, nunca interesse e comodidade. Nesse caso, o capitalista está fora, pois ele paga como forma de manter para si a parcela maior e nisso o Evangelho não consiste. Quem disser o contrário, é somente capitalista.
Se você ainda assim disser que o que a pessoa tem é fruto do trabalho dela, então você é capitalista e anticristo do mesmo jeito. Pois o trabalho também é uma forma de comunhão dentro do cristianismo verdadeiro. A hierarquia na produção é horizontal, rotativa e deliberada por grupo. O líder é o norteador dos princípios e dos valores, para que a força não se sobreponha ao bem-comum, mas se foque no suprimento das necessidades de todos. Alegre uma plateia falando isso, mas morra a ter que praticar isso. Nada há de fácil nesse modo cristão de produção. E onde achar tanta força para viver, sem demagogia, numa vida assim, sem ceder aos caprichos dos avanços tecnológicos e das riquezas? A resposta é: achar a nossa sobre-humanidade.
Possuir bens gera uma vida confortável e prazerosa, por isso os cristãos percebem as conquistas como bênçãos, mas desconhecem como a produção se deu. Sobra não é bênção. O salário é sobra do capitalista. O pagamento é sobra do capitalista. O acúmulo também não é bênção. Lucro não é bênção. Portanto, oferecer a Deus o agradecimento por uma vida confortável, considerando que você não passa as necessidades que os outros passam por ter seu salário ou seu lucro certo, é hipocrisia, é prática adotada do capitalismo, é exibição social da sua vida como forma de mostrar que você realizou uma superação, que venceu as dificuldades. Ou seja, uma vida tida como de superação é uma vida anticristo, pois você deixou seus semelhantes para trás. Não há nada que agracie tal ato no Evangelho (ao menos nos Evangelhos verdadeiros).
Atualmente, embora haja uma propagação sobre Cristo, ela é apenas comercial, capitalista, política, para fins fora do Evangelho. Se durante dois mil anos não foi possível pregar corretamente a palavra de Deus e ela se tornou mero pano de fundo do capitalismo, então este vence em qualquer arena onde a disputa seja a moral e a ética. Estas seguem os moldes do lucro e das ideologias que defendem o capital. Numa guerra em que disputem a direita e a esquerda, por exemplo, o Evangelho não aparecerá unilateralmente. Nesse caso, mesmo ele sendo citado como argumento, o seu efeito é inútil, pois nunca servirá aos interesses capitalistas em essência, mas servirá perfeitamente como recurso de indução populista. Moral e ética, assim, são atores de conveniência totalmente aquém do Evangelho.
Os que defendem que Deus intervém em favor da força e da segregação das raças, ou que vale a tortura, a misoginia, a homofobia, a violência, a ditadura, ou ainda que os humanos sejam vistos sob a ótica do naturalismo, na verdade defendem não o Evangelho, mas suas visões em conformidade com os interesses que lhes foram implantados em face da alienação terrena alimentada pelo falso evangelho. Se não se vive uma ideia, então ela serve para dizer qualquer coisa. Nesse caso, se não se vive o Evangelho, então se pode citar qualquer trecho da Bíblia, extasiar o público, e temos um “ensinamento” bíblico postulado na falácia de um valor moral e ético tão aparentemente profundos que para quebrar tal afirmação só mesmo outra falácia, desnuda da essência de Cristo, mas recheada de cristianismo pirotécnico. A tortura passa a ser vista como legítima, pois os humanos podem definir sem Deus – mas com pauta nos seus versículos – o que é sagrado ou não. Se a tortura atingir os meus adversários, então ela é sagrada. Quando a dor dos outros me é insensível, eu sou apenas cristão, não de Cristo. O cristão pauta suas atitudes numa pretensão materialista, em favor do capitalismo, meio ideal que mina os lucros sobre a força do trabalhador. Se a dor dos outros me toca, passo do cristianismo para Cristo. Pois Cristo nunca cedeu à tentação de ter, mas entregou-se inteiro para ser, algo que nos é sobre-humano.
O campo político ajuda a desmascarar o cristianismo do verdadeiro Cristo. O primeiro foi perfeitamente planejado para os fins do materialismo terreno. Saiu do laboratório romano para institucionalizar as relações de poder e força. Cristo mesmo não cedeu a nada. Por isso morreu. Assumir uma bandeira em que o Brasil seria acima de tudo e Deus acima de todos não esconde a farsa do falso cristianismo, pois revela simplesmente que o materialismo cabe ao homem e este caberia a Deus, mas este deve ficar longe das conquistas materiais daquele, apenas abençoar o ouro cavado pela criatura. Nesse caso, Deus só serve para a ideia de que os que conquistam são gloriosos e benditos, afastando os que laboram em prol das propriedades fartas dos grandes. Nunca o Evangelho verdadeiro viveria aí.
Além da indiferença à dor do outro, o cristão do falso cristianismo, a fim de manter seu foco em conquistas dentro dos ideais do capitalismo, é também favorável a que se provoque a dor no outro. Daí vale lançar sobre o próximo qualquer forma de ódio, xenofobia, misoginia, homofobia, racismo, machismo, fascismo, feminicídio, homicídio, intolerância, tortura e morte. Mas para que tal processo seja eficiente e tido como cristão (falsamente), há que se eleger quem não comporá o grupo a ser perseguido. E não são os fracos que criam os certames. Eles só podem ocupar ou o papel de massa para avolumar a opressão ou para serem as vítimas. As regras vêm dos grupos de supremacia. Eles têm cor (branca), origem (europeia), ideais (lucro), sistemas (capitalismo), ideologias (fascismo, nazismo) e atitudes (preconceito, violência). Mas como estão a serviço do poder, acabam por sujeitar aos seus interesses os grupos menos favorecidos. Daí a manipulação do Evangelho para atingir o pacto da mediocridade. Sobre as palavras de Cristo passa a valer o que dizem os pregadores e não mais o próprio Cristo. Temos uma profecia muito mais satânica que cristã. Tudo passa então ao completo interesse da ascensão social, completamente sem o viés de Cristo, já que seu Evangelho é outro.
Daí que você observar um ditador alegando que matará em nome da ordem, da justiça e dos valores cristãos e ter milhões que o aplaudam não deve soar estranho. Mas claro que sempre devemos dar um olhar combativo, pois quem souber o que é o Evangelho, por ele deve lutar. Os conformados não fazem qualquer alteração, pois o comodismo capitalista encarcera bons alienados na leitura interpretada pelos que ecoam a voz dos sistemas opressores.
Também você não deve arregalar os olhos quando alguém com uma bíblia na mão defender o aborto, a pena de morte, o porte de arma, a execução sumária de pobres, negros, índios, mulheres e homossexuais, pois você está querendo ver Cristo aí, mas você ainda não entendeu que se trata apenas de cristianismo, um conceito amplamente moderno de usar o nome de Cristo em prol de sistemas capitalistas que sempre alteraram as versões bíblicas para se adaptarem ao trabalho, ao consumismo e ao lucro.
Portanto, a violência a que chegamos hoje no Brasil não ocorre por conta da falta da palavra de Deus, mas sim porque o homem não o deixou falar, apenas fez as interpretações que lhe interessavam e lhe interessam até hoje. O único sistema que realmente se sobrepõe a todos os demais é o capitalista. O cristianismo apenas é uma veia desse sistema principal. E se um pobre, o único agraciado pela salvação eterna, segura a bandeira dos sistemas superiores e opressores, é porque, de novo, trata-se de um reles cristianismo. Cristo, mesmo, está esperando que sua palavra seja aberta e vivida, pois em algum momento ninguém mais suportará esse cristianismo anticristo. E, então, vem o fim.